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Mudanças Climáticas: Custos da inércia

Fonte: DW

A economia não é uma ciência exata. Mesmo assim, políticos e economistas esperam obter as respostas mais precisas possíveis ao desafio das mudanças climáticas. Concretamente, às seguintes perguntas: qual é a extensão do possível dano do aquecimento global? E quanto custa evitar esse dano ou, pelo menos, restringi-lo? Até agora, o Stern Review on the Economics of Climate Change, um relatório de 700 páginas apresentado pelo economista Nicholas Stern a pedido do governo britânico em 2006, foi a tentativa mais abrangente e influente de encontrar uma resposta a essas questões. Caso não se faça algo, diz o documento, os danos causados pelas mudanças climáticas poderiam gerar uma perda anual de 5% no Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Previsões mais pessimistas falam em ou mais.

Já os custos da ação contra o aumento da temperatura global, segundo o relatório de Stern, somam cerca de 1% do desempenho econômico global. Em outras palavras, financeiramente, vale a pena combater o aquecimento do planeta. Alguns economistas criticaram o estudo por, em sua visão, superestimar os riscos e os danos das mudanças climáticas, mas, em geral, predominou uma recepção positiva. Enfim, diziam os analistas, as mudanças climáticas recebiam uma etiqueta com preço que permitia negociações políticas.

Economistas desenvolvem complexos modelos para estimar custos econômicos. Eles se baseiam numa infinidade de hipóteses sobre evoluções que, em parte, só vão se concretizar daqui a algumas centenas de anos. Cada uma das hipóteses pode ser encarada como demasiadamente otimista ou pessimista.

Como evolui a população mundial? Até onde vai subir o nível do mar, e quanto custa proteger os litorais? Como fica o balanço custo-benefício quando o aumento da temperatura na atmosfera impossibilita o cultivo de certas plantas numa determinada região, mas o favorecem numa outra? E como se calcula a poluição de hoje com custos que só serão “cobrados” daqui a 300 anos?

William Nordhaus, economista da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, afirma que o desenvolvimento desse tipo de modelo é uma arte.

“Dê uma olhada nesses livros pesados que o IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] publica, todo esse material que não é digerido: uma tabela aqui, um gráfico ali, uma declaração. Fazer disso algo que se possa entender, ilustrar e testar, é esta a arte de criar modelos”.

O próprio Nordhaus desenvolveu modelos amplamente difundidos no contexto da avaliação das consequências do clima. Desde 1975, o estudioso também é conhecido como o inventor da meta de limitar o aumento da temperatura global a entre 2 e 3°C para evitar danos maiores ao planeta.

Para atingir as metas de temperatura, os economistas começam pelo preço do dióxido de carbono. Cada tonelada de CO2 que é emitida com a queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás deveria ser vinculada a custos. Se o preço aumenta, diminui a demanda – e aumenta também a pressão pela busca de fontes alternativas de energia.

“Qual deveria ser o preço? Um dólar? Dez dólares? Cem dólares? Mil dólares?”, indaga Nordhaus. “É para isso que se aplica esses modelos – para definir qual o efeito do preço das emissões nas metas de limitação da temperatura”.

Durante a Conferência do Clima de 2015, em Paris, 195 países fecharam um acordo para limitar o aumento da temperatura global a abaixo de 2°C – sem, porém, definir os compromissos necessários para atingir esse objetivo.

“Para alcançar a meta de dois graus, o preço inicial para uma tonelada de CO2 teria de ser de cerca de cem dólares”, afirma o economista ambiental Robert Medelsohn, que também pesquisa na Universidade de Yale e trabalhou frequentemente com Nordhaus. Uma comissão sob a batuta de Nicholas Stern e do Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz faz recomendações parecidas.

Mas, na realidade, o preço da tonelada de CO2 é bem mais baixo, entre cinco e dez dólares. “Com esse preço, só é possível limitar o aumento da temperatura global a 4°C”, diz Mendelsohn.

Para ativistas pró-meio ambiente, isso é uma catástrofe. Mas Mendelsohn vê poucos motivos de preocupação. “De um lado, existem os danos, do outro, os custos para a limitação dos danos. Cada sociedade deveria se esforçar em manter a soma das duas coisas no mínimo possível.”

Segundo os cálculos de Mendelsohn, os custos da limitação dos danos aumentam de forma exponencial, quanto mais ambiciosa for a meta do clima (…)  “O custo depende de quantos combustíveis fósseis o mundo ainda poderá consumir”, explica o economista. “Se a meta de temperatura foi aumentada de 2 a 3 para 4°C, pode-se usar mais combustíveis fósseis. Assim, ganhamos mais tempo para desenvolver fontes alternativas de energia.”

O pesquisador de Yale acredita que 4°C “provavelmente seja uma boa meta” com a qual todos podem concordar. “Durante 30 anos, procurei argumentos econômicos para justificar a meta de 2°C e não encontrei”, relata Mendelsohn. “Onde está o estrago que justificaria as despesas necessárias para coibi-lo?”

O presidente do Banco Mundial, Jim Yong-kim, contraria. “Um mundo 4°C mais quente pode e deve ser evitado”, disse, já em 2012, durante a apresentação de um estudo para a análise das consequências do clima. Num cenário como esse, haveria grandes perturbações no abastecimento de água e alimentos.

“As piores consequências afetam especialmente as pessoas mais pobres nos países mais pobres”, segundo Kim. Se o mundo ficar 1°C mais quente, os estragos somariam entre 100 e 200 bilhões de dólares por ano, estima o economista Mendelsohn. Outros estudos chegam a custos ainda mais altos. É muito – mas é o suficiente para justificar os custos extras de temperaturas mais altas?

No máximo neste ponto, passa a fazer sentido a questão sobre o sentido de ponderações custo-benefício. “É muito problemático reduzir as alterações climáticas a valores monetários”, constata o pesquisador do clima Mike Hulmes, da universidade britânica de Cambridge. “Dá-se às pessoas a ilusão de que o aquecimento global é um problema econômico”.

Mas, segundo Hulmes, há questões muito mais essenciais ligadas às mudanças climáticas. “Como vivemos nesse planeta? Ligadas a isso, existem perguntas relativas à justiça, à distribuição de renda, à ética e à natureza humana. Isso supera em muito os valores monetários.”

A visão restrita dos economistas também é visível em seus modelos, afirma Hulmes. “Tudo o que não tem um mercado passa a ser negligenciado”, completa. “Como se estima a natureza? Que valor têm os ecossistemas para pessoas em diferentes culturas?”

A análise de custos que surgem em países ricos com estragos cujas consequências são sentidas por pessoas em países pobres mostra a injustiça de comparações econômicas. E isso ficou especialmente evidente num dos primeiros relatórios do IPCC, diz Hulmes.

“Naquela época, os economistas avaliavam a vida de um cidadão dos Estados Unidos como cem vezes mais valiosa que a de um queniano”, exemplifica. Na discussão sobre as mudanças do clima, conclui, é necessário haver menos, e não mais cálculos de custo-benefício.

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