Risco de “segunda divisão” na zona do euro

O comissário da União Europeia para Assuntos Econômicos e Monetários, Olli Rehn, teria motivos para estar feliz. Ele será promovido a vice-presidente da Comissão Europeia, já que sua pasta é considerada central para a solução da crise do euro.No entanto, ao apresentar em Bruxelas o prognóstico conjuntural para o quarto trimestre, ele parecia participar de um enterro. Combinando com o terno preto, veio seu humor negro: “Por favor, não atirem no mensageiro que traz as más notícias. Este prognóstico é o último sinal de alerta. A recuperação econômica da UE estagnou-se e há perigo de uma nova recessão, se não se agir com decisão”. Rehn advertiu uma série de países que irá propor sanções, caso estes não estabilizem seus orçamentos a tempo. E, no entanto, isso ainda nem leva em consideração as duas grandes crianças-problema da zona do euro – Grécia e Itália –, cujas dívidas galgam alturas astronômicas. Ao contrário de Atenas, Roma conti nua tentando resolver os próprios problemas. Sem uma mudança radical, isso não será possível, avisa Rehn. Mas primeiro é preciso esclarecer a situação econômica, após o anúncio de renúncia do primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

“O mais importante para a Itália é restabelecer sua estabilidade política e capacidade de decisão. E, paralelamente, empenhar-se com a maior decisão possível para alcançar as metas na política financeira e fomentar reformas estruturais que incentivem o crescimento”, disse o comissário europeu para Assuntos Econômicos. Ele disse que ainda não considera problemático os altíssimos juros de cerca de 7% para títulos de dez anos da dívida pública italiana, já que essas taxas de risco tão elevadas só precisam ser pagas no caso de novo endividamento. Porém Rehn já teme que no próximo ano o ágio se eleve a um nível insustentável. Por isso é preciso ação veloz.

No dia 09/11, a agência de notícias Reuters noticiou que Paris e Berlim estariam considerando reduzir a zona do euro, com vista a uma integração mais estreita. O dado desencadeou debates em toda a UE, acirrados pelos problemas internos na Grécia e Itália. A ideia de, no futuro, separar mais fortemente um espaço monetário mais integrado do resto da UE causou preocupação sobretudo entre os países mais fracos. Oficialmente, o governo alemão refuta tais planos, buscando, pelo contrário, maior integração e disciplina entre o os países da Eurozona, ainda que a custo de emendas nos tratados europeus.

Também o presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, afastou tal hipótese, falando à televisão portuguesa. “A Eurozona é um grupo estável. Ideias estúpidas, como a da sua divisão, me fazem reagir de forma alérgica.” Entretanto na Alemanha acumulam-se as dúvidas sobre as medidas anticrise adotadas na Europa, com um número crescente de economistas e políticos admitindo que os Estados debilitados possam ser excluídos da união monetária. Segundo a chefe de governo alemã, Angela Merkel, a estabilização da zona do euro só será possível após novas medidas de reforma nos países endividados. No tocante à indefinição do estado político na Itália, a premiê preveniu: “A Itália precisa recuperar credibilidade. O pacote de corte de gastos tem que ser implementado urgentemente”. Merkel declarou-se otimista de que Roma está no bom caminho: porém o tempo urge. Diante desse pano de fundo, ganhou significado especial o “Discurso berlinense sobre a Europa” do presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, na noite de quarta-feira. Ficou claro que ele é a favor de novas medidas de integração. “A velocidade da União Europeia – e, mais ainda, da Eurozona – não pode ser a velocidade de seu membro mais lento ou mais hesitante”, reforçou.

No entanto, na qualidade de presidente da comissão que rege toda a UE, ele tem ouvido frequentemente que a união está ameaçada. Os tratados não definem a Eurozona como algo distinto da UE, lembrou, mas sim como “o núcleo da União Europeia”. Para ele está também claro que nenhum país, nem mesmo a Grécia, pode ser simplesmente convidado a deixar a Eurozona. Porém Barroso identifica outro perigo: que alguns poucos Estados, como a França e a Alemanha, assumam as rédeas da região, em vez de confiarem nas instituições europeias. Esse passo marginalizaria a Europa, acredita o político português. A Europa precisa complementar a democracia dos Estados na cionais através da democracia europeia, “senão entregaremos a real soberania aos mercados, que não estão subordinados a qualquer controle democrático”. Porém a confiança no método comunitário parece estar falhando. No momento, em meio às vicissitudes da crise, o que se observa – também na Alemanha – é uma forte tendência a agir em nível nacional. Autoria: Christoph Hasselbach / Augusto Valente
Revisão: Carlos Albuquerque

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